ESCUTANDO OS RETRATOS

Por Marcos Cesário

Durante os cinco dias que passei dentro do presídio não conheci nenhum detento; quero dizer: não me deparei com nenhuma alma completamente encarcerada.

Conheci, sim, homens e mulheres que estavam privados de um certo tipo de liberdade. E que viviam, cada um em sua, quase sempre, intacta individualidade, novas formas de liberdade para sofrer e para serem felizes. Sim, porque a felicidade também existe dentro dos presídios. Em todo grupo social, por mais duro e árido que pareça ou seja: existem formas de vida renascidas na aceitação e da adaptação.

Eu fotografei muito pouco, porque me ocupava muito mais em ouvir as histórias de cada pessoa que sobrevivia dentro do conjunto penal. Meu ouvido ainda guarda os registros mais fiéis e nítidos dos dias que vivi ali. Mas o que o ouvido registra não pode ser revelado de forma visível como uma fotografia.

Por isso, ao rever estes retratos, escuto coisas que os retratos não dizem a quem os contempla. Mas estão, nestes retratos, os risos, os arrependimentos, as palavras, os sonhos daqueles que ouvi com curiosidade e que me receberam em suas celas e em suas almas. E são estes sons que escuto, nitidamente, nas luzes e nas sombras destes retratos e é através delas que minha alma recorda.