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ESCUTANDO OS RETRATOS Por Marcos Cesário Durante os cinco dias que passei dentro do presídio não conheci nenhum detento; quero dizer: não me deparei com nenhuma alma completamente encarcerada. Conheci, sim, homens e mulheres que estavam privados de um certo tipo de liberdade. E que viviam, cada um em sua, quase sempre, intacta individualidade, novas formas de liberdade para sofrer e para serem felizes. Sim, porque a felicidade também existe dentro dos presídios. Em todo grupo social, por mais duro e árido que pareça ou seja: existem formas de vida renascidas na aceitação e da adaptação. Eu fotografei muito pouco, porque me ocupava muito mais em ouvir as histórias de cada pessoa que sobrevivia dentro do conjunto penal. Meu ouvido ainda guarda os registros mais fiéis e nítidos dos dias que vivi ali. Mas o que o ouvido registra não pode ser revelado de forma visível como uma fotografia. Por isso, ao rever estes retratos, escuto coisas que os retratos não dizem a quem os contempla. Mas est...
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REENQUADRANDO OS "ENQUADRADOS" No ano de 2009, a jornalista Emiliana Carvalho, a professora Maisa Antunes e o fotógrafo Marcos Cesário, receberam autorização para entrar no presídio e, assim, puderam conviver de perto, dentro das celas, com pessoas que eram obrigadas a sobreviver e sonhar ali. Durante aqueles dias, eles recolheram depoimentos e, principalmente, confissões de homens e mulheres que mesmo estando encarcerados pensavam, sorriam, choravam e sonhavam, livremente, a vida que deixaram para trás ou a liberdade que esperavam reencontrar à sua frente. Agora, 17 anos depois desta lúcida experiência, relendo os textos, ouvindo os depoimentos e revendo os retratos feitos com uma aproximação genuína: aqueles dias puderam ser revividos e reinterpretados pelos autores do projeto e por algumas pessoas que foram convidadas a olhar, a partir de sua individualidade, as liberdades que estão contidas nas diversas formas de aprisionamentos coletivos e íntimos... A vaidade é livre Na...
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SOBRE ENQUADRADOS Por Emiliana Carvalho Já se passaram alguns anos, faz muito tempo que não penso naqueles dias em que estive nas dependências do Conjunto Penal de Juazeiro, participando, a convite de Marcos Cesário, juntamente com Maisa Antunes, do projeto “Enquadrados”. Eu tinha 26 anos, era estudante de jornalismo, e tinha uma curiosidade e uma ingenuidade que não me permitiram em momento algum temer aquele lugar, muito menos os homens e mulheres que lá se encontravam encarcerados. O foco do projeto era conhecer as almas e os pensamentos daquelas pessoas, baseando nossas percepções no livro De Profundis, a carta de Oscar Wilde, escrita enquanto ele estava na prisão. Lá fomos nós, de cela em cela, conversar um pouco com os detentos, conhecer suas histórias além dos crimes que cometeram. Encontramos figuras interessantes, com personalidades que nos causavam curiosidade e empolgação. O rapaz da família de narcotraficantes que adorava citar fatos da história nacional e mundial, o detent...
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LIBERDADE E OS CÁRCERES DA EXISTÊNCIA HUMANA: UMA REFLEXÃO FILOSÓFICA, TEOLÓGICA E JURÍDICO-SOCIAL Por Robston André Conceituar a liberdade constitui tarefa complexa e praticamente inesgotável no âmbito das ciências humanas. A compreensão de seu significado, valor e alcance percorre vastos campos do conhecimento, notadamente a filosofia, a teologia, as ciências jurídicas e as demais ciências sociais. Trata-se de um conceito multifacetado, historicamente disputado e permanentemente reinterpretado conforme as transformações culturais, políticas e existenciais da humanidade. Nesse contexto, uma das formas mais adequadas de compreender a liberdade talvez seja analisá-la a partir de sua assimetria, isto é, por meio de seu oposto: os cárceres que limitam, condicionam ou aprisionam a existência humana. A liberdade revela seu verdadeiro valor precisamente quando confrontada com as diversas formas de aprisionamento que incidem sobre o indivíduo. Pode-se afirmar, nesse sentido, que a existência ...
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O QUE MAIS ME ASSUSTA... Por Ana Bittencourt Quando completei 18 anos, minha mãe me deu de presente uma boneca de pano e me disse, num tom carinhoso e risonho, que não importava a maioridade: eu sempre seria sua menina, eu sempre seria dela. Naquela época, ansiosa e ingenuamente feliz por ter conquistado a tão desejada liberdade de tomar minhas próprias decisões, prestei mais atenção na beleza da boneca, que guardo até hoje, do que nas palavras da minha mãe. Um ano depois minha mãe morreu e fui experimentando, aos poucos, a sensação de estar livre da preocupação materna e constante com meu bem estar; livre dos telefonemas diários perguntando se eu estava me alimentando direito ou pedindo para não chegar tarde em casa; livre das recomendações exageradas de repouso, e dos mais variados tipos de chás, para curar um simples resfriado ou uma leve dor de cabeça; livre de receber opiniões contrárias ao que eu queria fazer e que, tantas vezes, me protegiam de mim mesma. O que estou tentando di...
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ENSAIO SOBRE TUDO O QUE NÃO SEI   Por Waldísio Araújo "Vi que não há Natureza, que Natureza não existe, [...] que um conjunto real e verdadeiro é uma doença das nossas ideias." (Alberto Caeiro) A partir das duas grandes cisões intelectuais do pensamento moderno, deixamos de ser o centro dos mundos cosmológico (Copérnico), biológico (Darwin) e cognitivo (a Física Quântica). Nossa percepção e nossa linguagem são incapazes, doravante, de pensar e falar do universo, da vida e do próprio conhecimento sem distorção. Aliás, não sabemos sequer o tamanho, peso e valor da distorção, menos ainda se existe o próprio mundo que agora julgamos distorcido. Porque, se houver uma realidade "em si", ou seja, independente de nossa percepção, tudo o de que sabemos é que ela nos chega tão filtrada, recortada, traduzida e reinterpretada que dela não reconhecemos senão vestígios. Com efeito, pelo menos sete camadas de mediação podemos distinguir entre tal mundo, para nós desde já problemát...