ENSAIO SOBRE TUDO O QUE NÃO SEI
Por Waldísio Araújo
"Vi que não há Natureza,
que Natureza não existe, [...]
que um conjunto real e verdadeiro
é uma doença das nossas ideias."
(Alberto Caeiro)
A partir das duas grandes cisões intelectuais do pensamento moderno, deixamos de ser o centro dos mundos cosmológico (Copérnico), biológico (Darwin) e cognitivo (a Física Quântica). Nossa percepção e nossa linguagem são incapazes, doravante, de pensar e falar do universo, da vida e do próprio conhecimento sem distorção. Aliás, não sabemos sequer o tamanho, peso e valor da distorção, menos ainda se existe o próprio mundo que agora julgamos distorcido. Porque, se houver uma realidade "em si", ou seja, independente de nossa percepção, tudo o de que sabemos é que ela nos chega tão filtrada, recortada, traduzida e reinterpretada que dela não reconhecemos senão vestígios.
Com efeito, pelo menos sete camadas de mediação podemos distinguir entre tal mundo, para nós desde já problemático, e nossa consciência:
- SENSORIAL: os órgãos dos nossos sentidos captam e percebem apenas dentro de ínfimos intervalos do imenso espectro ondulatório do real físico-analógico, deixando todo o resto virtualmente imperceptível, indiscernível ou restrito apenas a efeitos indiretos. Exemplos: cores do espectro eletromagnético situadas do infravermelho para baixo ou do ultravioleta para cima são invisíveis para nós, assim como sons de frequências muito baixas são para nós inaudíveis ou sons de frequências muito altas podem se manifestar em forma de dor. O corpo humano tem limitações análogas para a capacidade dos receptores olfativos e gustativos, da sensação de pressão tátil ou diferenças térmicas ou da sensibilidade a diferenças gravitacionais, além da incapacidade de detecção de campos magnéticos. Em contrapartida, por exemplo, algumas serpentes podem ver no espectro infravermelho, morcegos podem ouvir em ultrassom, baleias ouvir em infrassom ou pombos se orientar por campos magnéticos.
- PERCEPTIVA: mesmo após a apresentação dos dados capturados pelos sentidos à percepção, esta ativamente seleciona e organiza o que recebe, focalizando-se a atenção nos estímulos relevantes e desprezando o resto. Assim, a percepção não copia passivamente o real obtido, mas de certa forma "constrói" uma realidade ativamente, segundo certos padrões ou expectativas. Exemplos: temos tendência a completar semicírculos como se estivéssemos vendo círculos inteiros, e muitas vezes conseguimos ler corretamente parágrafos inteiros com letras trocadas ou invertidas nas palavras.
- COGNITIVA: uma vez percebido, parte do conteúdo é perdido por ser limitada a capacidade da memória em retê-lo duradouramente, e muito do que permanece o é por satisfazer a nossas necessidades racionais de coerência, de confirmação de crenças ou de estímulo à autoestima, entre outras. Exemplos: não memorizamos facilmente dezenas de números aleatórios nem lembramos todas as palavras de uma longa conversa; tendemos a prestar atenção apenas a notícias de um viés político ou de um time de futebol; a considerar previsível um acontecimento que, no entanto, já ocorreu; a usar exceções como justificativa a regras ("meu avô fumou a vida toda e só morreu aos 90 anos"); a tomar correlações como se fossem causalidades ("quando saio sem guarda-chuvas, chove") etc.
- LINGUÍSTICO-CONCEITUAL: as categorizações e regras da linguagem, que totalizam e estabilizam, como se fossem efetivamente dadas, enumerações incompletas, tornando fixo o que é fluxo contínuo, presente o que é passado ou ausente, simplificado o que é complexo, total o que é parcial, mas à custa de perder ou ocultar o que não foi nomeado no léxico ou regulado na sintaxe, excluindo-o como não-dito e, portanto, não pensado discursivamente mas, no máximo, dizível somente após muito esforço e rodeios. Exemplos: usamos uns poucos nomes para fixar cores que virtualmente estão numa larga zona confusa de um espectro que é contínuo; usamos sem o notar palavras que orginalmente eram apenas metáforas; por construção frasal personalizamos coisas tidas por inanimadas ("O parafuso não quer sair"); uma palavra ganha um sentido diferente ou mesmo oposto ao que foi enunciado ("A doença progrediu") etc.
- TEÓRICO-EPISTÊMICA: as simplificações das teorias e dos paradigmas, que dão como meramente irrelevante ou provisória a massa dos dados reais potencialmente não atingíveis pelas observações, experimentos, cálculos ou raciocínios ‒ que são, eles próprios, moldados por critérios de validade históricos, culturais e institucionais. Exemplos: há preferência por teorias mais simples ainda que isso signifique desprezar informações, variáveis ou problemas cuja utilidade para a pesquisa não foi esgotada; a seleção dos dados submetidos a observação ou experimentação pode ter sido conduzida sub-repticiamente pelos próprios fundamentos teóricos da área.
- SÓCIO-CULTURAL, RELIGIOSA E MORAL: crenças, valores e compromissos grupais determinam o que podemos ver, dizer ou pensar e levam-nos a policiar uns aos outros e a nós mesmos segunda regras adquiridas de forma social, afetiva ou institucional. Exemplos: terremotos podem ser vistos como castigo divino; sexo pode ser considerado algo moralmente culposo; confundimos o que é com o que deveria ser; tomamos nossa cultura como regra do que seria considerado "natural"; tendemos a concordar com opiniões de pessoas que pensam de forma semelhante à nossa; certas palavras ou pensamentos não podem ser ditos publicamente sem causar horror; tendemos a considerar "bom senso" apenas aquilo que nosso próprio pensamento aprova, ignorando ou punindo opiniões diferentes.
- METAFÍSICO-EPISTEMOLÓGICA: nível mais enraizado e difícil de perceber, envolve as categorias e princípios constituintes do próprio pensamento e sua lógica, que projetam sobre o real regras de pensar que ele talvez não respeite, como os princípios da identidade, da contradição, da razão suficiente ou da causalidade. Exemplos: pressupomos que todo fato tem uma causa única que faz com que ele ocorra assim e não de outra forma; que se um enunciado é verdadeiro seu contrário será necessariamente falso; que uma coisa permanece idêntica a si mesma no decorrer do tempo; imaginamos, sem provas, a existência de um mundo "real" independente daquele que nós percebemos; todos esses princípios têm sido devidamente postos em dúvida pela filosofia (Kant, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche, Heidegger…) e pela ciência moderna (a Física Quântica, a Biologia Neodarwinista…).
Como resumo desses sete níveis, temos que, por um lado, nossos órgãos dos sentidos só são capazes de entregar dados dentro de um espectro perceptível, uma espécie de janela sensorial abaixo da qual o estímulo é demasiadamente fraco e acima da qual ele é intenso demais de tal modo que pode tanto não ser percebido conscientemente quanto chegar à consciência por outro órgão, às vezes dolorosamente. Assim, a imensa gama de comprimentos de onda abaixo do infravermelho e acima do ultravioleta não é perceptível para nós, podendo contudo provocar calor ou dano mesmo a outro órgão do corpo; sons de baixíssima ou de altíssima frequências, ou seja, abaixo de 20 Hz ou acima de 20 MHz, podem estar muito altos (acima de 100 dB) e, contudo, não os percebermos como sons mas como calor, vibração, pressão, dor ou náusea. Em cada caso, depende-se tanto da intensidade da fonte quanto das características do órgão receptor: uma agulha caindo a alguns metros provoca uma onda sonora demasiadamente fraca para mover os ossículos do ouvido médio e ser escutada; a turbina de um avião decolando a poucos metros, pelo contrário, produz ondas fortes o suficiente para provocar rompimento do tímpano, luxação dos ossículos e destruição das células ciliadas da cóclea. Obviamente, há algo fora de nossa consciência, mas não o podemos perceber tal como ele é. Por outro lado, a consciência integra, filtra, interpreta e atribui significado aos dados que recebe. Primeiramente, porque ela não pode processar a imensa quantidade de informações que lhe chegam pelos órgãos dos sentidos, ela precisa selecionar os que se impõem por sua intensidade, novidade, relevância para a sobrevivência ou adequação ao objetivo atual, focando a atenção neles e deixando a maioria restante num plano de fundo inconsciente. Em seguida, porque ela recebe dados heterogêneos entre si, vindos de sentidos diferentes, e os integra na experiência de um modelo mental de objeto no qual se reúnem num formato único tais dados: por exemplo, a sensação de um objeto que lhe aparece como amarelo, ácido, redondo, com cheiro cítrico e textura áspera. Finalmente, porque ela interpreta, dá um significado ao objeto integrado, comparando-o com a memória de padrões armazenados no passado ("tal objeto se assemelha ao comido ontem"), rotulando-o com um nome e uma categoria ("tal objeto é um limão"), avaliando-o como bom, seguro, útil etc., ou seus contrários ("é azedo, mas bom para a saúde"), e inferindo coisas não mais sensoriais a partir dele ("se é um limão, deve ter sementes dentro"), de modo que a consciência constrói uma realidade que lhe permite preencher lacunas, aplicar conceitos e gerar expectativas. Finalmente, ela usa a interpretação para orientar a ação tomando decisões ("se é azedo e saudável, pode ser ingerido como suco ou guardado para depois"), planejando sequências motoras ("pegar o limão com a mão direita, espremê-lo, levá-lo à boca e beber") e usando o resultado como nova entrada de dados sensoriais ("sabor azedo, sensação refrescante") que serão comparados às anteriores expectativas para reforçar ou alterar a memória e o aprendizado adaptativo. Nossa consciência, portanto, que não é um órgão primariamente contemplador, relacionar-se-ia com um mundo constituído de algo do qual somente sabemos o que dele nos aparece.
Por todo o exposto, acreditamos, com Nietzsche, que a verdade não é uma adequação transparente entre a realidade “em si" e aquilo que acredita nossa consciência acerca dela, mas, perspectivisticamente, que todo conhecimento parte e depende de um lugar, de um corpo, de uma época, de um interesse, de um sentido. Assim, o que consideramos como evidente "verdade" não é senão uma dentre outras tantas interpretações que tem se mostrado por algum tempo forte, útil, capaz de organizar a vida e de resistir a outras interpretações ‒ e isso vale também para as próprias “verdades" (manteremos que elas só existem no plural) que propomos aqui. Contudo, ensaiemos fazer uma concessão provisória aos antinietzscheanos e metafísicos em geral e admitamos como hipótese de trabalho que haja uma realidade de fundo independente de nossas interpretações. Ora, ainda assim nossos sete níveis de limitações, enumerados acima, garantem que poderemos sempre duvidar de que tal realidade possa ser para nós mais que um horizonte que estará sempre ali adiante, mas que não pode ser jamais alcançado e ultrapassado; e isso porque eles não são suprimíveis por esforço nem por método, pois são constitutivos da nossa condição humana. Assim, não podemos ver do infravermelho para baixo ou do ultravioleta para cima, não importa o quanto concentremos nossa atenção; não podemos pensar sem linguagem e, contudo, nenhuma linguagem capta a plenitude ou a totalidade do real; não podemos fazer ciência sem paradigmas, e todo paradigma implica exclusão. Podemos, decerto, imaginar que nos aproximamos cada vez mais do mundo "em si", mas a própria aproximação só se dá na medida mesma em que antepomos diante dele todo tipo de mediações: seleções, filtros, condições, teorias, fórmulas, instrumentos de medida e observação etc. A physis ama esconder-se, disse Heráclito; e Teseu só pôde acercar-nos da Medusa mediante um espelho, pela a qual ele a adivinhava, mas invertida. Mais espantoso e paradoxal é que cada aproximação tem como efeito um afastamento cada vez maior do real, e sugiro a experiência mental de imaginar a distância que se abre a nossos olhos ao usarmos o microscópio para perscrutar o abismo para baixo e dentro de nós e o telescópio para vasculhar o abismo acima e fora.
Podemos, portanto, tentar oscilar mais um pouco entre a posição perspectivista e a realista ‒ afinal, uma não exclui a outra se considerarmos o realismo como apenas uma perspectiva a mais ‒, ao mesmo tempo acreditando na existência de um mundo independente, mas negando a possibilidade de um verdadeiro acesso a ele. Isso é uma posição precária entre dois abismos, mas pode servir-nos de metáfora para questionar a loucura em que nossa civilização incide ao tentar, por temor de tudo o que lhe parece abissal, construir um castelo pretensamente sólido sobre a corda-bamba em que o corpo deveria aprender a oscilar para equilibrar-se; essa construção maluca ela a executa com o método usual com que as crianças erguem castelos de cartas: buscando equilibrá-las duas a duas, fazer o mesmo com outras duas ao lado, adicionando uma carta sobre esses dois pares e repetindo esse processo para os lados e para cima, até concluir-se a construção se alguma mínima brisa ou vibração no ambiente não puser tudo no chão. Assim se ergueu, com nossos corpos e em nossas mentes, da Idade Média para cá (mas sobre bases deitadas por outros povos), a civilização ocidental: tendo como finalidade estabelecer no alto da construção a dualidade entre o Bem e o Mal, fomos conectando entre si todas as outras, cimentando-as por aquela ficção, que vimos de comentar, que pretende contrapor um mundo "real", "verdadeiro", "profundo", o Unum, o Verum, o Bonum (o Mundo platônico das Ideias, o Paraíso cristão, a Vontade shopenhaueriana, a sociedade sem classe marxista, o livre mercado neoliberal) a um mundo "aparente", "enganoso", "superficial", "múltiplo" e "diverso" (o mundo sensível, a Terra, o corpo, o desejo, a singularidade, a diferença) ‒ mundo este que nos convenceram, aliás, a buscar diuturnamente abandonar e suprimir para que a luz do sol da verdade dissolva a escuridão de nossas mais escuras cavernas.

A contraposição entre um mundo aparente e um mundo real cimentou outras dualidades entre si: corpo e alma, natureza e cultura, indivíduo e sociedade, sujeito e objeto, "conservadorismo" e "progressismo" e assim por diante ‒ e o fez por assimilação de seus respectivos polos àqueles dois. Foi assim que nos acostumamos a considerar os desejos e necessidades do corpo como ilusão a ser combatida por ascetismos e fins salvacionistas; a tomar a natureza como coisa em si inerte, por ser formada de matéria, e a cultura como inerentemente dinâmica, por ser produzida por almas; a atribuir ao sujeito do conhecimento a atividade de um movimento de dentro para fora, para o objeto, tomado como passivo no ato de conhecer; a acusar o indivíduo de entregar-se à ilusão, produzida pelo corpo, do pecado e da culpa, a ser redimida pelos ritos, costumes e crenças da sociedade, corporificados na Igreja, na pátria, no time, na associação, no Estado, na empresa, no senhor mercado, no partido… Como arremate, o dualismo determinismo versus livre-arbítrio une a base e o topo do edifício ao reificar, tornar real a ilusória noção metafísica de livre-arbítrio ‒ que, significativamente, Kant, chamando-a "liberdade transcendental" considera como a única ideia da razão pura que teria realidade "em si", que assim ligaria nosso mundo fenomênico ao numênico ("em si"), enquanto capaz de iniciar séries causais espontaneamente, mas apenas acessível pela razão prática (não pela especulativa, que só pode postulá-la, não conhecê-la), como condição necessária de possibilidade de uma vida moralmente conduzida: sem postular que nossa vontade é livre para agir, não faria sentido nos responsabilizar por nossas ações (logo, nos tornar recompensáveis ou puníveis jurídica, religiosa ou moralmente), inviabilizando a própria vida moral.
Pela oposição livre-arbítrio versus determinismo, pretende-se convencer as mentes de que teríamos que escolher entre, por um lado, afirmar que nossas escolhas, independentemente de nossa vontade, são rigorosamente determinadas (antes mesmo de escolhermos entre elas) pela sequência de causas anteriores a elas, ou, por outro lado, afirmar que temos a capacidade de agir sem causa outra que nossa livre vontade. Ora, nossa lista de limitações do acesso à realidade mostra que não podemos conhecer de fato a totalidade da cadeia causal que conduz a uma nossa escolha, e tampouco podemos saber se o sujeito pode ser causa primeira de suas próprias decisões, e independente de outras causas externas ou internas. Diante disso, toda narrativa a favor quer do determinismo quer do livre-arbítrio não passa de construção e é posterior às nossas decisões, sustentando-se apenas como meios úteis para fins práticos, morais, ideológicos, mas inverificáveis pela razão especulativa. Em todo caso, a oposição em causa tem como pressuposto a crença metafísica na existência de entes com vontade livre para escolher e decidir (que costumamos referir como "dotadas de alma"). Em outras palavras, temos aí implícita uma metafísica da substância, uma crença (inverificável, pelos mesmos motivos da oposição acima criticada), que podemos sempre contrapor, ao menos com ganhos prático-teóricos.
A oposição determinismo versus livre-arbítrio permitiu, portanto, que se associasse ficticiamente a este uma "alma", essa entidade metafísica que, presumidamente, se salvaria caso recuperasse para o Bem sua emancipação em relação a um corpo, a uma matéria, a um desejo, a um instinto, a uma individualidade singular, a uma multiplicidade, a uma diversidade, a uma desordem, enfim, à inépcia que a estaria puxando para a terra e o Mal desde a Queda, desde o advento da linguagem ou desde a invenção da propriedade privada. Facilmente essas conexões foram alinhavando num só tecido toda a caterva dos dualismos que têm moldado nosso comportamento por séculos e fundado extensos campos da Filosofia ou ciências particulares inteiras, que começaram por oposições simples entre corpo e alma, natureza e cultura, bem e mal, indivíduo e sociedade, verdadeiro e falso, dentre outras. E a impossibilidade de decidirmos honestamente entre seus respectivos polos, por inacessíveis, deveria impedir-nos de continuar apostando todo o patrimônio de nossa cultura e mesmo da civilização e da vida planetária num vasto edifício construído por superposição de dualidades à beira de um abismo ‒ um edifício que apenas se sustentava no longo período antes de perdermos a crença na existência, separabilidade e acesso direto aos polos opostos mencionados.
Mas, se observarmos como funciona o pensamento quando pensamos cada uma das oposições, perceberemos que podemos sempre experimentar inverter nossa visão e passarmos a ver como realidade primária a relação, e não os relacionados ‒ que podemos interpretar como mera extensão lógica da relação em direção a duas ideias-limite; assim, por exemplo, sujeito e objeto poderiam ser imaginados como entidades que apareceriam no horizonte do conhecimento quando a ação de conhecer fosse tão intensamente executada que se materializasse como sujeito e isso produzisse com a mesma intensidade um objeto correspondente, mas ambos, se possíveis, não seriam coisas substanciais nem formas transcendentais, mas puras consequências de alguma relação de poder-saber. Em todo caso, podemos desde já preconizar o primado dos problemas sobre as soluções e, mais politicamente, a problematização das relações de poder e saber.
O perspectivismo não é necessariamente um relativismo radical, e não impede que utilizemos quantos dualismos quisermos, até porque talvez não possamos mesmo pensar ou nos expressar sem eles. Negar que haja uma verdade de fundo, mas apenas verdades plurais e provisórias, não implica afirmar que seria igualmente digna toda e qualquer opinião que quiséssemos enfiar na cachola ou que isso nos impedisse assumir posições frente aos jogos de poder e de saber. Assim, não saberemos nunca se temos "livre-arbítrio" no sentido metafísico, mas podemos saber se somos coagidos por estruturas culturais opressivas; não saberemos se o mundo "em si" é determinista, mas podemos saber até que ponto os pressupostos determinísticos de uma determinada prática científica podem conduzir à eficaz cura de doenças ou exploração interplanetária. O debate pode então ser enriquecido se focarmos menos na natureza última do real que no inventário, crítica e transformação das mediações que nos constituem diante dele.
Nossa civilização trata determinismo e livre-arbítrio como oposições contraditórias, de modo que negar um dos polos seria automaticamente afirmar o outro. De nossa parte, contudo, propomos substituir tal oposição contraditória por uma oposição meramente complementar entre condicionamento e liberdade, deixando o termo "determinismo" para essas construções mentais que são os sistemas teóricos (ainda que alguns destes não deem conta da validade de suas conclusões senão probabilisticamente): podemos então dizer que toda teoria é mais ou menos determinística em sua formalização mas, ao aplicar-se ao mundo concreto (o "mundo sub-lunar" de Aristóteles) e à vida prática, seus princípios e relações servem apenas de balizas pelas quais as coisas e eventos podem ocorrer (os foedera naturae de Lucrecius), sendo tudo o que existe condicionado pelo estado de coisas que lhe serve de contexto e que, em última instância, é concretizado pela intensidade das relações de poder em que as forças universais se engalfinham. Este estado "atual" dos jogos de forças não era em cada momento previsível a partir das configurações anteriores nem deve ser reificado como sistema do próprio mundo, mas nada impede que seja analisado e que dele se extraiam "leis" de comportamento ‒ que, contudo, por serem abstraídas da configuração de forças atual, somente são válidas enquanto a intensidade do conflito de forças permanecer tão elevado que o todo pareça imutável pela ampla incapacidade de um campo avançar no momento sobre o outro.
Por algum misterioso mecanismo interno, tendemos a subsumir todas as nossas decisões, ações, pensamentos a programas mentais, somente dentro de cujas regras e relações aqueles podem fazer algum sentido; nuns as relações serão interpretadas como determinísticas, noutros como de livre-arbítrio. Mas no próprio mundo concreto tudo é condicionado, todas as forças vão até onde PODEM ir e nunca podem ir a todo lugar que quiserem, porque existem todas as outras forças; por isso o grilo é livre para saltar quantos metros puder, e nem ele poderá prever exatamente até onde a interação de suas forças com a do vento, da gravidade ou mesmo, virtualmente, todas as forças do universo poderão impulsioná-lo, pois o impulso de suas pernas ou a aerodinâmica de suas asas não dependem somente de si próprios, de modo que o grilo simplesmente agirá como grilo e fará coisas que grilos possam fazer mas ao seu modo, segundo a "vontade de potência" que sintetiza a resultante de todas as forças que atuam dentro e fora dele e com cuja força ele se movimenta "livremente" se a boca do sapo ou uma chinelada não o impedirem. Mesmo no experimento científico é sabido que o cálculo do deslocamento de um corpo é perfeitamente exato, mas desde que se desprezem limitações como o atrito ou a resistência do ar e se pense em certa situação, tida como normal, de temperatura e pressão, ou seja, condições que em verdade não temos motivos para crer existirem em nenhuma parte do universo (a não ser em termos práticos, contando com certo "arredondamento" nos cálculos, mesmo que com erro mínimo).
Afinal, se abandonamos o livre-arbítrio metafísico, ainda podemos falar de alguma forma em liberdade: não uma ausência de causas que levaria nossa vontade a poder ou saber tudo, mas uma capacidade de, interpretando as causas que nos parecem mover, agir de modo refletido, autônomo, sobre elas, recusando ao máximo sofrer coerções e afirmando ou negando nossos impulsos não porque sejamos causa incausada, mas porque desenvolvemos a imaginação de nos identificar com alguns determinantes e resistirmos a outros. Trata-se, é verdade, de uma liberdade modesta, em graus, em que o escravo que rompe as correntes não se torna "metafisicamente livre", porém se torna mais ou menos livre em relação ao que era antes, o que depende de como tem conduzido sua auto constituição. Para tanto, é preciso coragem para observar os signos de nossas mais profundas limitações e potencialidades, e uma ética orientada para a expansão da nossa capacidade de pensar e agir. E se é para, sendo perspectivistas, acreditarmos num “em si”, ainda que inalcançável, agiremos com o máximo de liberdade se agirmos de tal forma que possamos nos aproximar de nosso abismo para bebermos das fontes criativas inesgotáveis de todo poder e vida. Talvez nossa modernidade tenha avançado tanto nas artes (a ponto de o Conceitualismo ter rompido seus últimos limites a ponto de imergi-la numa crise permanente desde então) porque temos perdido como civilização o impulso, a vontade de potência de fazer da nossa própria vida uma obra de arte.
Maio de 2026.
----------
Waldísio Araújo é escritor e filósofo. Dedica sua vida a olhar por trás dos próprios pensamentos e sentimentos. Através das palavras que escreve busca conhecer a verdade que as palavras, sem querer, escondem.

