
O QUE MAIS ME ASSUSTA...
Por Ana Bittencourt
Quando completei 18 anos, minha mãe me deu de presente uma boneca de pano e me disse, num tom carinhoso e risonho, que não importava a maioridade: eu sempre seria sua menina, eu sempre seria dela. Naquela época, ansiosa e ingenuamente feliz por ter conquistado a tão desejada liberdade de tomar minhas próprias decisões, prestei mais atenção na beleza da boneca, que guardo até hoje, do que nas palavras da minha mãe.
Um ano depois minha mãe morreu e fui experimentando, aos poucos, a sensação de estar livre da preocupação materna e constante com meu bem estar; livre dos telefonemas diários perguntando se eu estava me alimentando direito ou pedindo para não chegar tarde em casa; livre das recomendações exageradas de repouso, e dos mais variados tipos de chás, para curar um simples resfriado ou uma leve dor de cabeça; livre de receber opiniões contrárias ao que eu queria fazer e que, tantas vezes, me protegiam de mim mesma. O que estou tentando dizer é que fui percebendo, aos poucos, que de todas as prisões que conheço, a solidão é a que mais me assusta...
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Ana Bittencourt é professora e escritora. Entende a biologia como uma forma de filosofia. E se aproxima das reflexões sobre a morte para agarrar com mais convicção sua vontade de escrever e viver.

CRISÁLIDA LIBERDADE
Por Juracy Marques
A fina pele que separa a alma do universo do seu intocável corpo nos abraça e, como borboletas que buscam, no abrigo do tempo, uma folha para aninhar-se, nos encasulamos e assim nos protegemos das fortes tempestades enigmático Tempo.
A Terra faz o mesmo! Sentindo como nós sentimos, porque seu sentido é o nosso sentido, se deita nos braços leitosos do Espaço, que dança como os dervixes para seduzir as estrelas e, usando dos feitiços mais primorosos da existência, endeusa-se e acolhe, no seu coração, o milagre da vida, do qual somos parte.
Foi esta alquimia que nos transformou no caroço do mundo, pois tudo está dentro de nós, mesmo o que está fora de nós. Nunca vimos a face de Deus, mas o sentimos quando as flores vivem suas anteses e senescências, quando os pássaros cantam ou quando a chuva molha nosso inquieto espírito.
Portanto, do cárcere profundo das coisas que existem e conhecemos, chegamos aos ecossistemas das coisas que não existem e desconhecemos. Assim, o conhecido só existe pelo desconhecido.
Nossos olhos, o espelho de nossa alma, assim como nossa pele, a janela por onde os ventos da vida passam, experimentam uma insustentável liberdade que nos chega pela música da beleza, a Grande Deusa, por assim dizer. E, dessa forma, vamos entendendo que estamos presos nos mistérios da crisálida liberdade.
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Juracy Marques é professor e um ativista que tenta defender a Natureza e a dignidade humana. Acredita que quanto mais perto estivermos do vento, das árvores, dos insetos e dos pássaros: mais perto estaremos de nossa conexão carnal e espiritual.