REENQUADRANDO OS "ENQUADRADOS"

No ano de 2009, a jornalista Emiliana Carvalho, a professora Maisa Antunes e o fotógrafo Marcos Cesário, receberam autorização para entrar no presídio e, assim, puderam conviver de perto, dentro das celas, com pessoas que eram obrigadas a sobreviver e sonhar ali.
Durante aqueles dias, eles recolheram depoimentos e, principalmente, confissões de homens e mulheres que mesmo estando encarcerados pensavam, sorriam, choravam e sonhavam, livremente, a vida que deixaram para trás ou a liberdade que esperavam reencontrar à sua frente.
Agora, 17 anos depois desta lúcida experiência, relendo os textos, ouvindo os depoimentos e revendo os retratos feitos com uma aproximação genuína: aqueles dias puderam ser revividos e reinterpretados pelos autores do projeto e por algumas pessoas que foram convidadas a olhar, a partir de sua individualidade, as liberdades que estão contidas nas diversas formas de aprisionamentos coletivos e íntimos...
A vaidade é livre





Na ala feminina, as grades estavam cobertas com cortinas para darem a impressão que elas estavam em suas casas e não dentro de celas.
As celas estavam sempre muito limpas e sempre tinha uma ou outra detenta fazendo as unhas, escovando os cabelos ou retocando com cuidado a maquiagem.
Enfeitar as grades com as cortinas e fazer as unhas eram, nitidamente, formas de resistência. Elas recusavam-se a desistir da vaidade, da feminilidade.
Manter os cuidados com as sobrancelhas, com as unhas, com os cabelos eram, de muitas formas, como manter também a liberdade que a beleza sempre oferece: mesmo, ali, encarceradas.
Libertos no cárcere







Os homens e mulheres que “aceitaram a Cristo”, os que se converteram dentro da prisão, encontravam uma verdade diferente para olhar-se como pessoa e detento.
Os detentos que não cediam aos cultos protestantes – que aconteciam todos os dias dentro dos pavilhões – se sentiam mais presos e impedidos de exercerem a liberdade que viveram um dia e sofriam com menos esperança; acreditavam sem tantas certezas num “futuro” e suportavam o cárcere de forma mais solitária.
Já os detentos recém convertidos na fé cristã: viam o encarceramento do corpo como uma libertação da alma, como uma providência divina para que reconhecessem e conhecessem, com mais intimidade, o Deus que ignoravam quando viviam uma liberdade que os aprisionavam do lado de fora do presídio.
Para os crentes, encarcerados, a prisão era uma libertação, uma aproximação real com o Pai celestial. O cárcere era uma espécie de benção disfarçada, uma reaproximação com o divino, uma chance concedida por Deus para que se libertassem da liberdade sem Deus.
Livres canções

Giocondo tocava e cantava quase todo tempo. Pregava e sonhava através da música que criava. Muitos detentos conheciam de cor as suas composições. Giocondo vivia com sua fé, com sua felicidade, e sentia-se usado por Deus e libertado por ele desde o dia que entrou no presídio.
"Senhor tu sabe o quanto eu tenho sofrido aqui nesse lugar
Rodeado de paredes, grades e zumbidos, que tentam me perturbar
Mas eu tenho um general de guerra ao meu lado pronto pra me proteger
Tenho um amigo fiel, inseparável, que sempre vem me vê
É Jesus, Jesus, meu pai amado
É Jesus, Jesus, meu Deus supremo."
(Canção de Giocondo Menezes da Silva - detento)
Quando o corpo liberta a alma





Para alguns detentos, exercitar os corpos era uma outra forma de libertar a mente. Os movimentos do corpo davam mais mobilidade para a alma dos prisioneiros. E, por breves momentos, a alma deles era convencida através do esforço físico que a liberdade estava por perto ou em breve iria chegar.
Um livre pensador

Edilson era um homem livre mesmo dentro da prisão. Ele lia sem parar. Escrevia sobre suas sensações de homem privado de uma parte de sua liberdade. Mas não choramingava. Assumia seus erros e mantinha sua dignidade de homem que, mesmo encarcerado, permanecia livre para pensar e sonhar.
Era um filósofo: andava dentro do pavilhão contemplando a si mesmo e aos outros com altivez e simplicidade; e exercia sua autonomia e liberdade até na forma de expressar o próprio silêncio.
Amor que liberta

Uma detenta e um detento, recém apaixonados, pediam aos funcionários do presídio que entregassem bilhetes e pequenas cartas de amor, que escreviam um ao outro.
E, como todos que amam, eles estavam encarcerados pelo desejo e se sentiam renovados e livres pelas palavras que escreviam e liam nas folhas de caderno.
O desejo mantinha suas mentes ocupadas e o coração, de cada um, sentia-se livre para ir em direção às poucas recordações que viveram dentro do presídio e aquelas recordações que, antecipadamente, imaginavam que um dia viveriam fora dali.