SOBRE ENQUADRADOS

Por Emiliana Carvalho

Já se passaram alguns anos, faz muito tempo que não penso naqueles dias em que estive nas dependências do Conjunto Penal de Juazeiro, participando, a convite de Marcos Cesário, juntamente com Maisa Antunes, do projeto “Enquadrados”.

Eu tinha 26 anos, era estudante de jornalismo, e tinha uma curiosidade e uma ingenuidade que não me permitiram em momento algum temer aquele lugar, muito menos os homens e mulheres que lá se encontravam encarcerados.

O foco do projeto era conhecer as almas e os pensamentos daquelas pessoas, baseando nossas percepções no livro De Profundis, a carta de Oscar Wilde, escrita enquanto ele estava na prisão.

Lá fomos nós, de cela em cela, conversar um pouco com os detentos, conhecer suas histórias além dos crimes que cometeram. Encontramos figuras interessantes, com personalidades que nos causavam curiosidade e empolgação. O rapaz da família de narcotraficantes que adorava citar fatos da história nacional e mundial, o detento filósofo, o cantor gospel, o hacker, o líder da ala B e a moça das cartas de amor, foram os que mais me marcaram porque, enquanto conversávamos com eles, a última coisa que me passava pela mente, eram os crimes que haviam cometido. A sensação era de que eu estava em qualquer lugar, menos entre os muros altos e vigiados de uma penitenciária.

Hoje, aos 42 anos, paro para pensar se teria o mesmo olhar, se não seria mais crítica e de espírito menos ingênuo ao falar com eles. E me alegro por ter podido viver a experiência sem a minha experiência, porque para encontrar as almas daquelas pessoas, para que elas sentissem que poderiam falar abertamente sobre elas, suas vidas e sentimentos, era necessário um espírito um tanto desarmado.

Sim, claro, havia histórias com desfechos difíceis de compreender. Havia pessoas que, sabemos, não era possível poetizar, que não foi possível nos aproximar, que, provavelmente, nem valeria a pena saber. Mas as vidas que conhecemos um pouco mais de perto, hoje me provocam outro tipo de curiosidade: Como estão agora? Ainda cumprem pena? Ainda vivem naquelas celas? Ainda vivem? E como? Difícil saber.

Enquadrados é isso, foi isso: um projeto que buscava encontrar nas almas dos encarcerados o significado da prisão e as chaves que os libertaram por dentro. Era uma forma de nos conectarmos e nos identificarmos com eles em algum nível e, quem sabe, conhecermos as nossas próprias prisões e encontrarmos as nossas próprias formas de liberdade.

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Emiliana Carvalho é jornalista e escritora. Tenta investigar o mundo com sua sensibilidade e lucidez. Intimista na forma de encarar tudo: inclusive o “coletivo”. Olha e tenta ver-se no que vê e, talvez por isso, enxerga o que quase ninguém vê.


MINHA RUDE UTOPIA

Por Jotacê Freitas

O mundo não se ajusta
Aos meus pequenos desejos
Que revelo sem segredos:
Justiça irrestrita e justa
Sem pagamento das custas;
Amor sem impedimento
Respeitando sentimentos;
Demasiado prazer
Em tudo que eu venha a fazer
Para o meu contentamento.

Busco um estado de espírito
De liberdade e alegria.
Quero rir da hipocrisia
De quem é triste e contrito.
Mais de mil vezes repito,
Como autocura e terapia,
Deflorando antipatias:
- A prisão não bastará
Para vir aliciar 
Minha rude utopia!

Grito, discorro, não corro.
Afirmo meus ideais
Com as letras garrafais:
Contra a prisão recorro
Ou vivo livre ou morro!
Feliz por ser desbocado 
E forte contra o abusado.
Quem determina limites
E não aceita palpites
Tem que ser encarcerado.

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Jotacê Freitas é poeta, professor e ator. Como poeta escreve para tentar interpretar-se melhor e como ator-professor se esforça para enxergar os alunos e a si mesmo enquanto ensina o que reaprende. Jotacê é um tipo de boêmio que acredita na lucidez da noite e não se confunde com a rotina que pode entorpecer, paralisar e embriagar durante o dia e por toda uma vida...