DE PROFUNDIS
A ideia de visitar e conviver com presidiários, dentro de um conjunto penal, foi – a princípio – influenciada pela obra De Profundis, do escritor, dramaturgo e conversador brilhante: Oscar Wilde.
Wilde foi condenado à prisão por ser homossexual, o que era considerado crime na Inglaterra do final do século dezenove.
Na obra, o poeta Irlandês transmite, através de suas angústias e de seu inegável talento e sensibilidade, a dor, a humilhação e uma frágil esperança que sentia ao viver encarcerado e privado de uma sociedade que o celebrava e o admirava. E ainda pior: privado da convivência com seus amados filhos, afastado dos livros que lhe inspiravam, dos amigos que lhe festejavam e que ele queria tão bem.
Aqui, alguns pequenos trechos desta reveladora carta, escrita há mais de um século, que o poeta endereçou ao seu amante Alfred Douglas, a si mesmo e a todos nós:
"Onde existe Dor, o chão é sagrado."
"Ser totalmente livre, e, ao mesmo tempo, completamente dominado pela lei, é o eterno contrassenso da vida humana [...]."
"[...] estou na prisão. A minha natureza produziu em mim um desespero selvagem; um abandono à dor que fazia pena ver; uma raiva terrível e impotente; amargura e desprezo; angústia que chorava alto; miséria que não encontrava voz, mágoa que era muda. Passei por todos os estados possíveis do sofrimento."
"A imaginação estava tão aprisionada como eu. A vaidade tinha colocado barras nas janelas e nome do guarda era ódio."
"Nem a Religião, nem a Moral, nem a Razão podem ajudar-me."
A moral não me ajuda. Sou antagônico nato. Sou uma daquelas pessoas que são feitas para exceções, não para regras. Mas, embora perceba que não há nada de errado naquilo que fazemos, percebo que há coisas erradas naquilo em que nos tornamos. Ainda bem que aprendi isso.
A Religião não me ajuda. A fé que os outros conferem àquilo que não se vê, concedo eu àquilo que posso tocar, e que posso ver. Os meus Deuses habitam em templos feitos com mãos, e é dentro do círculo da minha experiência atual que o meu credo se torna perfeito e completo; excessivamente completo, talvez, pois, como muitos ou todos aqueles que colocaram o Céu nesta terra, encontrei nela não apenas a beleza do Céu, mas também o horror do Inferno."
"Umas das muitas lições que aprendemos na prisão é que as coisas são o que são, e que serão o que serão."
"Só quando perdermos todas as coisas é que sabemos que as possuímos."
"Dentro de nós, o tempo não prospera. Regressa."
"O momento do arrependimento é o momento da iniciação. Mais do que isso. É o meio pelo qual alteramos nosso passado."
"Estou muito mais individualista do que alguma vez fui. Nada me parece ter o mais pequeno valor, exceto aquilo que retiramos de dentro de nós."
"Por esta razão, não há verdade que se confronte com o Sofrimento. Às vezes, o Sofrimento parece-me ser a única verdade. Outras coisas podem ser ilusões dos olhos ou do apetite, feitas para cegar um e enfardar o outro, mas foi do Sofrimento que as palavras foram feitas, e há dor no nascimento de uma criança ou de uma estrela."
"É sempre crepúsculo na nossa cela, tal como é sempre meia-noite no nosso coração."
"As grandes coisas da vida são o que parecem ser, e por essa razão, por muito estranho que isto possa te parecer, são muitas vezes difíceis de decifrar. Mas as pequenas coisas da vida são símbolos. Através delas, recebemos mais naturalmente as nossas lições mais amargas."
"Não há um único homem miserável, neste lugar miserável onde eu também me encontro, que não tenha relações simbólicas com o próprio segredo da vida."
"[...] fui eu quem se arruinou e que ninguém, grande ou pequeno, pode ser arruinado a não ser pelas suas próprias mãos. Estou pronto para fazê-lo. Estou tentando fazê-lo, embora possas, neste momento, não o pensar. Se levantei contra ti esta piedosa acusação, pensa que acusação levantarei contra mim sem piedade. Por muito terrível que tenha sido o que tu me fizeste, aquilo que eu fiz a mim mesmo foi muito mais terrível ainda."
"É assim que a vida da prisão, com as tuas infindáveis privações e restrições, torna-nos rebeldes. O mais terrível não é nos partir o coração – pois os corações são feitos para serem partidos –, mas transformar-nos os corações em pedra."
"Quando são libertados, muitos homens levam consigo a prisão, escondem-na no coração como uma desgraça secreta, e finalmente, como pobres coisas envenenadas, deixam-se cair num buraco e morrem."
"O que sofri então, e o que ainda sofro, a pena não pode descrevê-lo ou o papel registrá-lo."
"Por detrás a Alegria e do Riso, pode haver uma natureza vulgar, dura e insensível. Mas, por detrás do Sofrimento, há sempre Sofrimento. Ao contrário do Prazer, a Dor não tem máscaras."
"Um dia de prisão em que não se chore é um dia em que o coração endureceu, não um dia em que o coração esteja feliz."
"O Prazer é para o corpo belo, mas a Dor é para a Alma bela."
"Não há nenhuma prisão em nenhum mundo na qual o Amor não possa forçar a entrada. Se não compreenderes isto, não compreendeste definitivamente nada acerca do Amor."
"Na realidade, o lugar de Cristo é ao lado dos poetas. Toda a tua concepção de humanidade provém diretamente da imaginação e só pode ser realizada através dela."
"Cristo, como todas as personalidades encantadoras, tinha o poder, não apenas de dizer, ele próprio, coisas belas, mas de fazer com que as outras pessoas lhe dissessem coisas belas."
"A tua justiça é toda ela uma justiça poética, exatamente aquilo que a justiça deve ser."
"Vieste ter comigo para aprender os Prazeres da Vida e os Prazeres da Arte. Talvez eu seja o eleito para te ensinar alguma coisa de mais maravilhoso: o sentido da Dor e a tua beleza."
WILDE, Oscar. De Profundis. São Paulo: Martin Claret, 2007.
